Editorial | Março 2017

Há exactamente 150 anos, a propósito do Manifesto do Povo de Évora, publicado em 17 de Março de 1867 no jornal que dirigia – o Districto de Évora – diz Eça de Queiroz que “É assim que se batem as maiorias parlamentares – pelo protesto das cidades. É assim que o povo colabora nos destinos nacionais. O povo (…) não faz requerimentos humildes á Camara (…) não: mostra o seu manifesto, que é a nobre voz da sua vontade, como um decreto”.

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Nas Bibliotecas, Arquivos e outros Centros de Documentação de todo o país trabalham hoje em dia muitas centenas de profissionais qualificados e outras tantas centenas de profissionais igualmente competentes, mas sem formação qualificada (simplesmente porque não existe formação técnica disponível). A grande maioria sente-se abandonada à sua sorte, perdida entre as linhas orientadoras da missão que lhe foi confiada – a de garantir o acesso à informação e ao conhecimento – e as directrizes e normas das estruturas administrativas em que se insere. Não há dinheiro e, já se sabe, a área cultural é a primeira a perder. Diz-se que é uma necessidade não prioritária e, como tal, fica a definhar lentamente, dependente do pouco oxigénio que os profissionais no terreno lhe conseguem emprestar.

É discutível a ideia de que a cultura e, neste caso específico, o acesso à informação, conhecimento e aprendizagem ao longo da vida são bens de segunda necessidade. É evidente que não se questiona a necessidade física de alimentos ou de condições de habitabilidade, mas é urgente reflectir: para onde caminha um país de gente estúpida, a não ser para o abismo? Que hipóteses de romper o paradigma da crise tem uma nação se os seus cidadãos não possuírem conhecimento, não tiverem capacidade de distinguir as notícias verdadeiras dos factos alternativos, não conseguirem satisfazer a sua curiosidade ou pior, se não sentirem, sequer, curiosidade?

E aqui entramos nós, os profissionais a quem a sociedade já vaticinou a extinção mas que, apesar de tudo, continuam vivos e a mexer. Só nós podemos inverter este processo. Só nós conseguimos garantir a todos, em igualdade de circunstâncias, o acesso livre, gratuito e democrático à informação e ao conhecimento. O que nos falta, então, para rompermos a ideia de que um bibliotecário ou um arquivista só servem para guardar papéis velhos?

É simples. Falta fazer ouvir a nossa voz. Longe do fulgor reivindicativo da pena de Eça, vivemos tempos em que volta a ser necessário tomar posição e contribuir para o destino que queremos dar ao nosso sector profissional. É preciso demonstrar a nossa capacidade, o que podemos e sabemos fazer. É preciso estabelecer laços com as comunidades que servimos e participar na vida quotidiana. É preciso que a nossa existência, os serviços que prestamos, sejam importantes, relevantes, necessários. E também é preciso debater, avaliar criticamente o nosso desempenho, compreender como e porquê nos deixámos enredar nesta espiral descendente. É preciso delinear caminhos, estabelecer objectivos e metas. Que bibliotecas e arquivos queremos em 2030? Para que isso aconteça, onde temos que estar em 2020? Planificação, acção, concretização e demonstração, são estas as estratégias.

Para que isto suceda, para que o esforço seja viável, é urgente agregar a nossa vontade, o nosso empenho, em torno da única estrutura que representa o nosso sector na sociedade portuguesa. A BAD – Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas é a única instituição que reúne condições para ser porta-voz da nossa “nobre voz”. É preciso que a ela se juntem todas as vozes: os que concordam, os que discordam, os que convergem, os que divergem, os que querem ter uma palavra a dizer e até os que nunca dizem nada, mas que com a sua presença dão força a um movimento que será benéfico para todos.

Sábado há Assembleia Geral da BAD. Apareça. Faça-se ouvir. Juntos fazemos a diferença.

Sobre o Autor

Zélia Parreira

Comentários (2)

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