A propósito de “O Lugar das Bibliotecas”, de Zélia Parreira

margarida froisLi com atenção o texto da colega Zélia Parreira que me parece muito interessante e que, para além do mais, tem o mérito de mais uma vez chamar a atenção para um problema que não é novo e que se arrasta há tempo demais levando à degradação continuada deste projecto não concluído da Rede Nacional de Leitura Pública.

Concordo com muitas das ideias que aqui desenvolve, com outras nem tanto. Aqui deixo a minha contribuição para uma discussão que se pretende alargada.

Não concordo com a imagem que passa sobre os “bibliotecários-carpideira”. Penso que, salvas raras excepções, todos nós já passámos por situações em que nos apetece ser um “bibliotecário-carpideiro”.

São inúmeras e variadas as situações em que isso acontece:

  • Sim, há, houve e haverá certamente, Presidentes de Câmara, Vereadores e Chefes de Divisão que têm uma visão muito própria do que é uma Biblioteca e qual o papel do Bibliotecário. Para alguns o Bibliotecário é apenas um Técnico Superior que tanto pode estar na Biblioteca, como no Turismo ou em qualquer sector onde haja necessidade de recursos humanos.
  • Sim, há muitas situações em que o Bibliotecário não tem autorização para qualquer iniciativa e tudo o que vem dele é de muito pouco interesse para os objectivos do Executivo.
  • Sim, muitas vezes o Bibliotecário que até tinha uma relação de trabalho interessante com a Tutela e que até conseguia fazer passar as suas ideias e ter apoio para as realizar vê, com a entrada de um novo Executivo, todo o trabalho posto em causa e de um momento para o outro fica “na prateleira”.
  • Sim, em muitos casos o Chefe de Divisão tem uma perspectiva sobre bibliotecas que tem pouco a ver com a sua verdadeira missão, mas que pelo seu peso politico e influência anula completamente o trabalho do Bibliotecário.
  • Sim, há muitos colegas com trabalho precário, com um horizonte profissional muito limitado, sendo completamente anulados pelos superiores hierárquicos.
  • Sim, há limitações de vária ordem. Quando se trabalha 40 horas por semana e se pica o ponto religiosamente à entrada e à saída, há pouco incentivo para que se esteja presente em atividades fora de horas.
  • Sim, há muitos colegas que se perdem em actividades que pouco têm a ver com o livro e a leitura, mas temos de compreender que criar hábitos de leitura em meios onde eles nunca existiram, não é tarefa fácil e que entre ter a Biblioteca deserta ou ter um punhado de pessoas que vêm em grupo, arrebanhadas sem saberem muito bem ao que vêm, mas que dão vida, que vão para as estatísticas e mostram trabalho, é tentador ir por aí.

Penso que serão poucos os que em algum momento da sua carreira profissional como Bibliotecário não viveram uma situação destas. E se ainda não a viveram têm todas as possibilidades de isso vir a acontecer.

Em 2012 vim do XIII Encontro de Leitura Pública animada com a possibilidade de rapidamente se encontrarem soluções para este enorme problema. Na altura tive a oportunidade de falar com algumas pessoas com responsabilidade na DGLAB, sobre a situação da Rede de Leitura Pública e verifiquei que a raiz do problema era conhecida. Sendo assim, pensei eu, é possível encontrar as soluções. Mas não! Passados 4 anos continuamos a discutir a questão sem se ter avançado um passo.

Em minha opinião seria necessário dar 2 passos estruturantes para que se construísse o resto:

  1. Reformular / Criar novos contratos programa entre a DGLAB e as Autarquias, desta vez não para a construção mas sim para o funcionamento das Bibliotecas, onde ficasse muito claro as responsabilidades de cada uma das partes. Como Rede Nacional de Leitura Pública ela não poderá estar apenas sob a tutela dos Municípios, mas terá que haver responsabilidades a nível central, que permitam criar procedimentos comuns a todas as Bibliotecas.
  2. As atribuições do Bibliotecário deverão estar perfeitamente definidas quanto ao seu papel central na Coordenação e no prosseguimento da Missão da Biblioteca.

Quem me conhece sabe que tenho defendido a criação de grupos de trabalho nas CIM. Hoje sou mais cautelosa. Continuo a achar que esse é o caminho para o futuro, mas parece-me que avançar para aí sem realizarem os 2 passos que descrevo acima, pode ser muito perigoso.

Margarida Custódio Fróis
Bibliotecária Coordenadora das Bibliotecas Públicas do Concelho de Arganil

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