“A documentação do mundo do trabalho está ainda por conhecer ”. Entrevista a Filipe Caldeira, arquivista da CGTP-IN

FilipeCaldeiraFilipe Caldeira

Imprescindível, mas ainda dispersa, inacessível, por conhecer e pouco valorizada. É assim que Filipe Caldeira, responsável técnico pelo Centro de Arquivo e Documentação da CGTP-IN , desde 2006, olha para a realidade dos arquivos do mundo do trabalho em Portugal. A propósito das recentes comemorações do 1 de Maio, o “Notícia BAD” entrevistou-o, traçou um breve retrato dos arquivos desta central sindical – imprescindíveis para o estudo do mundo do trabalho, da realidade sindical e dos movimentos sociais em Portugal -, e procurou conhecer os desafios que se lhe colocam.

 

Fale-nos um pouco da sua experiência como arquivista. Como é que se dá a sua entrada no mundo dos arquivos, concretamente no da CGTP-IN?
Comecei a trabalhar na CGTP-IN por intermédio de um estágio efectuado no final da pós-graduação em Ciências da Informação e da Documentação, que frequentei na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL). Já tinha alguma experiência de trabalho na área dos arquivos, pois tinha efectuado um outro estágio no Arquivo Histórico Diplomático. De qualquer modo, como se depreende, o tipo de documentação em causa e as responsabilidades que me foram atribuídas numa e noutra instituições eram muito diferentes. No Centro de Arquivo e Documentação da CGTP-IN, para além das habituais tarefas desempenhadas por um arquivista, desde o arquivo corrente ao arquivo definitivo (concentradas, sobretudo, neste último), coordeno, tecnicamente, vários projectos nesta área de actuação. Mas é importante referir que as minhas funções, na CGTP-IN, não estão circunscritas ao trabalho arquivístico. Também apoio a actividade do departamento de Cultura e Tempos Livres na organização de diversas iniciativas (concursos, exposições, edições, etc.). Digo que é importante referi-lo porque isto significa que não estou a cem por cento concentrado nas tarefas de gestão documental. Além disso, estas funções adicionais permitiram-me “descobrir” uma área de que aprendi a gostar bastante: a edição.

Quais as principais motivações e que dificuldades sente?

Aquilo que me motiva, na CGTP-IN, é o facto de, com a restante equipa, estar a colaborar, com o meu modesto contributo, para a preservação, a organização e a valorização do acervo documental de uma organização com a história riquíssima da Intersindical, herdeira de um movimento sindical que remonta à primeira metade do século XIX, e com o reconhecido e fundamental papel que desempenhou nas conquistas laborais e sociais que hoje sobrevivem. Fonte de motivação, sem dúvida, mas também uma grande responsabilidade!

As dificuldades que sinto não serão, provavelmente, muito diferentes daquelas que outros colegas sentirão… Gostaria muito que o trabalho que estamos a desenvolver pudesse ser efectuado com maior celeridade, mais recursos – humanos e financeiros -,  e que contemplasse toda a estrutura sindical afecta à CGTP-IN, espalhada por todo o país. O trabalho de maior fôlego que temos vindo a desenvolver foi possível através dos vários projectos e linhas de financiamento a que nos temos candidatado, nomeadamente do QREN e do Programa ADAI.

Em que medida é que a formação que fez na área dos arquivos se adequou e adequa à sua realidade profissional?

Como referi anteriormente, fiz uma pós-graduação em Ciências da Informação e da Documentação, que complementei com uma dissertação de mestrado, na mesma área, também na FCSH-UNL, dedicada à colecção sonora da CGTP-IN. Esta formação, no seu conjunto, foi fundamental porque me forneceu um conjunto de ferramentas teóricas e práticas que me têm sido muito úteis nas funções que exerço. Sabemos, contudo, que por vezes é difícil, quando chegamos ao “terreno”, aplicar a teoria tal como a apreendemos nas instituições de ensino. Mas a base está lá e o desafio é, partindo dela, conseguirmos adaptá-la, e adaptarmo-nos, às situações que encontramos, procurando encontrar o melhor compromisso possível entre aquilo que são as necessidades da organização em que nos encontramos e as recomendações teóricas e normativas da nossa área de trabalho.

Na sua tese de mestrado estudou os registos sonoros da CGTP-IN. Qual o ponto de situação desse projecto e qual a importância desses registos para o estudo do movimento sindical em Portugal?

A colecção sonora da CGTP-IN despertou o meu interesse por várias razões. Era uma colecção que estava fisicamente dispersa por vários depósitos, pouco adequados à sua preservação. Os registos sonoros são, como sabemos, um tipo de suporte frágil, que exige condições de preservação muito específicas, nomeadamente quanto à temperatura e humidade relativa. À medida que fui conhecendo um pouco melhor a colecção, apercebi-me de que algumas cassetes remontavam a Outubro de 1974 e registavam as reuniões do Plenário de Sindicatos da Intersindical. Ouvir estas reuniões, realizadas num momento tão particular da nossa história contemporânea, e apercebermo-nos da emoção, do entusiasmo, da alegria com que se intervinha e participava nestes encontros não é o mesmo do que ler os registos escritos, as actas que se lavraram a posteriori. E isto acabou por me cativar. Penso que alguma da importância desta colecção tem aqui, também, a sua raiz. Além disso, é uma colecção constituída por gravações de iniciativas que, no calor do momento, nem sempre viram registadas, por escrito, as suas conclusões e os assuntos discutidos. Falo de seminários, conferências e actividades similares sobre temas sindicais e do mundo do trabalho; mas também existem gravações de programas de rádio sobre os emigrantes portugueses e a actualidade sindical (décadas de 1970 e 1980), produzidos pela própria CGTP-IN, que, a julgar pela pesquisa que temos efectuado, são registos únicos.

1.º de Maio de 1975, em Montemor-o-Novo1 de Maio de 1975, em Montemor-o-Novo. Foto do Arquivo da CGTP-IN

Como vê a situação dos arquivos do mundo do trabalho em Portugal?

Infelizmente, o trabalho efectuado nesta área é muito escasso, embora se possa destacar uma ou outra instituição com algum trabalho meritório e, em alguns casos, pioneiro nesta área. Estou a lembrar-me, por exemplo, do Centro de Documentação Movimento Operário e Popular do Porto e do trabalho de diagnóstico que realizou, no âmbito da Porto 2001: Capital Europeia da Cultura, através do projecto de pesquisa Para preservar e divulgar a memória do Porto: os arquivos das organizações de trabalhadores. Há outros exemplos, mas associados, maioritariamente, a instituições académicas.

Esta escassez, contudo, não deixa de ser algo surpreendente. Costumo evocar sempre, a este respeito, as palavras do arquivista espanhol Rodríguez Salvanés quando, em 2010, num artigo sobre o Archivo Historico de La Fundación Francisco Largo Caballero (FFLC), notava que, embora talvez tenha sido no âmbito do trabalho, do processo produtivo, que se tenha produzido a maior quantidade de fundos de arquivo, não existia em Espanha um arquivo estatal ou um centro de arquivos do mundo do trabalho, à semelhança do que sucedia, por exemplo, em França. E acrescentava que, sendo esta documentação imprescindível para o conhecimento da nossa história, ela se encontrava dispersa, inacessível ou por conhecer e, sobretudo, pouco valorizada. Não descreveria melhor a situação portuguesa…

Na sua opinião, que iniciativas governamentais faltam em Portugal no âmbito da promoção e salvaguarda dos arquivos do mundo do trabalho?

Se assumirmos que os arquivos sindicais e do mundo do trabalho se constituem como uma fonte imprescindível para, usando as palavras de André Lopez,  “a constituição de múltiplas visões da história”, é evidente que caberá ao Estado um papel não menos responsável e fundamental no que respeita ao conhecimento, à preservação e à divulgação deste património. Ou seja, parece-me que, respeitando, inevitavelmente, a autonomia própria das organizações sindicais, o Estado deveria assumir um papel mais activo, concretamente no que respeita à criação de condições que facilitem, em primeiro lugar, o conhecimento da documentação existente e das condições em que se encontra, sem o que se corre o risco muito sério de se perder uma parte muito significativa da nossa memória colectiva.

E para lá do papel do Estado? Como vê a iniciativa das instituições em tratar, salvaguardar e difundir estas memórias do mundo do trabalho?

Sabemos que é às organizações sindicais e àquelas directamente relacionadas com o mundo do trabalho que cabe a grande responsabilidade no que respeita à preservação, organização e divulgação da sua memória. Mas também sabemos que, sozinhas, com os limitados recursos de que dispõem, sentirão grandes dificuldades em fazê-lo. A articulação com as instituições académicas e outras entidades ligadas ao mundo laboral e da sociedade civil, em projectos comuns ou que convirjam para o objectivo comum de sensibilização para a importância deste trabalho – de conhecer e de salvaguardar este património -, pode revelar-se um caminho frutífero, à semelhança, aliás, do que já sucede em Espanha ou em França.

 

O Arquivo da CGTP-IN: breve apresentação

Constituição. A fundação da CGTP-IN remonta a 1 de Outubro de 1970. O Centro de Documentação foi criado cinco anos depois. Entre 1980 e 2006, as suas funções ficaram circunscritas à gestão da documentação bibliográfica e à elaboração de dossiers temáticos. Em 2006, na sequência do 10.º Congresso da CGTP-IN, realizado em 2004, as atribuições do Centro de Documentação foram alargadas, passando a contemplar a gestão da documentação de arquivo. Foi também nesta altura que a missão do, a partir de então, designado Centro de Arquivo e Documentação (CAD) ficou definida: a gestão de toda a documentação produzida e recebida pela CGTP-IN, independentemente do seu suporte ou data, bem como o apoio técnico à estrutura sindical associada a esta central sindical, na medida das suas possibilidades. A partir de 2009 foi possível desenvolver um conjunto de projectos que permitiram lançar as bases do trabalho arquivístico que está a ser desenvolvido actualmente.

Equipa. O funcionamento do CAD é assegurado por dois técnicos superiores de arquivo e um técnico-adjunto, sob coordenação do dirigente Fernando Gomes, membro do Conselho Nacional, da Comissão Executiva do Conselho Nacional e do Secretariado Nacional.

Fundos. Os fundos documentais do CAD reflectem o percurso multifacetado que tem caracterizado a acção da CGTP-IN ao longo dos últimos quarenta e quatro anos de actividade. Para além do registo das várias acções de luta (greves sectoriais e gerais, manifestações, concentrações, desfiles, jornadas, vigílias), podemos encontrar informação relativa a todos os seus órgãos directivos (Congresso, Conselho Nacional, Plenário de Sindicatos, Comissão Executiva, Secretariado do Conselho Nacional), bem como às comemorações do 1.º de Maio e do 25 de Abril de 1974, e às várias actividades profissionais, culturais e desportivas, entre outras iniciativas sindicais e relacionadas com o mundo do trabalho. Merece destaque, entre a documentação produzida e recebida pela CGTP-IN, ao nível central, o arquivo fotográfico. São 74 099 negativos, com enorme abrangência temática e amplitude cronológica (1979 –), resultado do trabalho pelo fotógrafo responsável da CGTP-IN, João Silva.

De destacar ainda dois outros fundos: a colecção de fotografia Armindo Cardoso e a colecção Elsa Figueiredo. A primeira, pela importância do período histórico em causa (1975-1979) e pelos acontecimentos retratados. A segunda, porque é constituída por recortes de jornais, nacionais e internacionais, sobre temas sindicais e do mundo do trabalho, bem como por circulares e outros documentos produzidos por sindicatos e outras estruturas sindicais, cuja documentação chega a remontar à década de 1940.

Condições de acesso. O CAD está aberto ao público em geral nos dias úteis, entre as 09h30 e as 12h30 e entre as 14h00 e as 17h30. Para além de disponibilizar a consulta aos seus fundos documentais, pode, caso necessário, orientar a pesquisa dos utilizadores, e efectua a reprodução de documentos. A pesquisa pode ser efectuada através do sítio web do CAD (http://cad.cgtp.pt/pt) ou localmente.

Sobre o Autor

Hélio Balinha (Arquivista)