Participar no Congresso BAD – depoimento de Manuela Barreto Nunes

Manuela Barreto Nunes_ParisCom que frequência tem participado nos Congressos BAD?
Participei em quase todos os Congressos desde o tempo em que ainda era estudante de Ciências Documentais, ou seja, começando em 1989 ou 90, em Lisboa. Acho que só faltei ao de Ponta Delgada, com grande pena minha.

Como descreveria as suas experiências de participação nesses Congressos?
Os Congressos BAD são sempre estimulantes, não só porque aprendemos e ficamos a conhecer o que se faz e o que se pensa por esse país fora, mas porque encontramos velhos amigos e fazemos novos. São portanto experiências positivas, que recordo agradavelmente. Como participei várias vezes do lado da organização, os congressos têm sido também momentos de partilha e solidariedade, às vezes de discussão acalorada sobre as opções a tomar, e esse trabalho colectivo também faz deles uma experiência aliciante.

Costuma apresentar comunicações? Porquê?
Tenho-me esforçado, nos últimos congressos, por apresentar comunicações, normalmente em colaboração. Faço-o porque participo em investigações cujos resultados e conclusões julgo importante divulgar e abrir ao debate e à crítica dos colegas: a partir do olhar dos outros podemos sempre ver melhor.  Faço-o, por querer colaborar no esforço coletivo do Congresso, e não me limitar a ser uma usufrutuária daquilo que os colegas comunicam: quero também eu participar com aquilo que investigo, aplico e penso, procurando sempre a melhoria da profissão e dos profissionais e para o aprofundamento das questões que a cada momento nos preocupam.

Em seu entender, que benefícios pode ter um profissional por participar no Congresso?
Participar no Congresso permite-nos, acima de tudo, estar com os colegas e usufruir de uns dias em que nos sentimos como parte de um coletivo com problemas e objetivos comuns, que no essencial se compreende e cuja reunião traz força ao trabalho quotidiano de cada um. Ao mesmo tempo, ficamos a conhecer melhor a realidade da profissão, aprendemos coisas novas e ganhamos força, energia e ideias que nos serão úteis no quotidiano profissional ou académico. Novos projetos nascem muitas vezes das ideias e dos contactos que surgem nos congressos e que nos permitem, por exemplo, criar redes de trabalho ou reflexão. E amizades também nascem, da partilha de ideias e dos momentos de descontração.

Lembra-se de alguma história ou episódio relevante da sua participação nesses congressos?
O Congresso mais memorável foi o de 1992, em Braga. Foi um congresso de luta, um congresso em que toda a classe se uniu para evitar o desmantelar da, na altura ainda tão recente, Rede Nacional de Bibliotecas Públicas.  Foi um congresso em que discutimos apaixonadamente, em que produzimos documentos, em que nos reunimos fora do programa para tomar decisões, em que saímos para o exterior e fomos denunciar os propósitos da Secretaria de Estado da Cultura à Associação Nacional de Municípios. Nessa altura fomos capazes de nos manifestar e de lutar por conquistas essenciais à nossa democracia. E vencemos. Se hoje em dia a RNBP passa por momentos difíceis, o facto é que, entretanto, não só não desapareceu, como cresceu e se expandiu – e à batalha que enfrentamos nesse célebre Congresso se deve essa existência e a consciência que ficou de que vale a pena lutar por ela.
Não posso terminar esta entrevista sem referir três amigos e colegas precocemente desaparecidos, cuja força de princípios foi determinante neste Congresso em particular. Refiro-me ao Joaquim Mestre, génio criativo, “inventor” da Biblioteca Municipal de Beja, ao Joaquim Portilheiro, um dos autores do Manifesto Sobre a Leitura Pública em Portugal, de 1983, e um dos fundadores da RNBP, e à Isabel Sousa, semeadora de bibliotecas, a quem muito justamente chamávamos “a Rosa Mota das bibliotecas”. Para isso também servem os congressos: para lembrar, para manter viva a memória deste corpo feito de cada um de nós.

Manuela Barreto Nunes
Professora Auxiliar e Diretora da Biblioteca Geral da Universidade Portucalense. Membro eleito pelos pares do Conselho Científico daquela universidade, onde coordenou os Cursos de Mestrado em Educação e Bibliotecas e em Ciência da Informação e a Pós-graduação em Biblioteconomia e Arquivística. Investigadora integrada do CIDEHUS – Universidade de Évora. Doutora em Documentação pela Universidade de Granada (2003). Pós-graduada em Ciências Documentais – Variante Bibliotecas e Centros de Documentação, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1991). Licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1985). Foi bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia entre 1999 e 2002. Como bibliotecária, exerceu nas Bibliotecas Municipais de Vila Nova de Famalicão (1990-1994) e Vila Verde, onde também dirigiu o Arquivo Municipal (1995-1999). Foi Vice-Presidente da Delegação Regional do Norte da BAD durante dois mandatos, sendo atualmente Vogal de Edição; na BAD, é também membro do Grupo de Trabalho de Bibliotecas Públicas. Foi fundadora, membro da direção e presidente da Bibliomédia – Associação de Bibliotecas para a Cooperação. Tem vários artigos publicados em revistas e obras coletivas, bem como em atas de Congressos e outros encontros científicos e profissionais, nacionais e internacionais.

Sobre o Autor

José António Calixto