Records in Context: o modelo relacional aplicado à descrição arquivística?

O Conselho Internacional de Arquivos [International Council on Archives – ICA] colocou em consulta pública um documento que fará parte de uma nova norma de descrição arquivística, conforme aqui já foi noticiado.

A versão preliminar do documento intitulado Records in Contexts (RiC) introduz um conceito de modelação de dados que “pode ser definido como ‘descrição multidimensional’. Mais do que uma hierarquia, a descrição pode ser representada como um grafo ou uma rede. A modelação de dados em forma de grafo acomoda a descrição multinível – com base no conceito de fundo –, contemplada na ISAD(G), mas também permite abordar uma compreensão mais ampla do conceito de proveniência. O modelo multidimensional possibilita assim a descrição do fundo, mas também da existência do fundo num contexto alargado, em relação com outros fundos.” (EGAD, 2016, p. 10 [tradução livre])

O período de receção de comentários terminou a 31 de Janeiro do corrente ano de 2017 e são conhecidos alguns contributos divulgados publicamente pelas seguintes entidades:
1. Society of American Archivistsn (SAA)
1.1. Technical Subcommittee on Describing Archives: A Content Standard (TS-DACS, 2016)
1.2. (Technical Subcommittee on Encoded Archival Standards (TS-EAS, 2016)
2. InterPARES Trust (2016)
3. Artefactual Systems, Inc. (Gillean, 2017)
4. Recordkeeping Innovation Pty Ltd (Reed, 2017)

Todos estes comentários têm um tom geral de crítica negativa, à exceção do produzido pelo TS-EAS da SAA, provavelmente porque uma das suas subscritoras é também autora da versão preliminar do RiC (Florence Clavaud, Archives Nationales, França). Ainda assim, mesmo neste documento, são muitas as dúvidas e preocupações expressas com a aplicação do modelo.

As maiores críticas são relativas ao processo de elaboração do documento, que parece ter sido pouco discutido nas comunidades de prática arquivística e confinado aos membros do grupo do ICA que o apresenta (Experts Group on Archival Description – EGAD). O RiC é descrito como eurocêntrico e focado nos utilizadores anglófonos; praticamente todos os contributos apontam a falta de diálogo do EGAD nas fases iniciais de definição do modelo.
Esta questão poderá, contudo, ser colmatada pelas fases subsequentes de elaboração, quer do modelo conceptual (RiC-CM), quer da ontologia (RiC-O), que se previa ter sido divulgada no final do ano de 2016 (EGAD, 2016, p. 2). Já quanto às críticas relativas a matéria de conceitos, e respetiva aplicação no modelo, pode haver necessidade de uma profunda revisão da versão preliminar em discussão.

Um dos maiores problemas na leitura e análise deste documento prende-se com a indefinição do modelo de dados que estará subjacente ao discurso enunciado: a descrição multidimensional corresponde a um modelo relacional? A um modelo orientado para objetos? Não é claro, considerando a informação neste momento disponível. Faltam definições da maioria dos conceitos utilizados (InterPARES Trust, 2016, pp. 9, 13; Reed, 2017; TS-DACS, 2016, pp. 2, 10; TS-EAS, 2016, p. 3), existindo mesmo alguma confusão entre aquilo que é um modelo conceptual e uma norma arquivística (InterPARES Trust, 2016, p. 4). Isto resulta em muitas dúvidas sobre a coerência da aplicação dos conceitos de “entidade”, “propriedade” e “relação”. A própria tipificação e listagem de relações (792 no seu total) parece refletir esta indefinição de conceitos, resultando numa descrição redundante e/ou desconexa dos atributos dos objetos que se pretendem caracterizar (EGAD, 2016, pp. 39–90).

O confronto da versão preliminar do RiC com outros modelos conceptuais já estabilizados mostra que ainda há muito trabalho de desenvolvimento para realizar até que o ICA possa substituir, de uma forma consequente, o atual modelo de descrição arquivística por um novo paradigma. Um desses modelos, aplicado há muito à descrição de objetos que costumamos considerar como “património cultural”, é o CIDOC Conceptual Reference Model (CIDOC-CRM) (ICOM-CIDOC, 2011). Embora existam algumas experiências de utilização deste modelo para a descrição arquivística, nomeadamente em países escandinavos (Kilkki, Hupaniittu, & Henttonen, 2012; Marklund & Halling, 2016), o CIDOC-CRM é pouco conhecido e aplicado no âmbito dos arquivos.

Nascido no âmbito do conselho internacional dos museus da UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization), o CIDOC-CRM está normalmente associado às comunidades de prática museológica mas afirma-se como “o ‘aglutinador semântico’ necessário à mediação entre as diferentes fontes de informação sobre o património cultural, tais como as que são geridas por museus, bibliotecas e arquivos” (ICOM-CIDOC, 2017, p. [tradução livre]). A importância dada pelo RiC aos contextos associados ao universo arquivístico é facilmente acomodada na ontologia do CIDOC-CRM, que tem como objetivo a integração da informação heterogénea que caracteriza o património cultural.

Se procurarmos uma leitura abrangente de qualquer objeto de informação neste contexto, as perguntas a que queremos que a nossa representação da realidade dê resposta são sempre as mesmas: o quê?, quem?, como?, onde? e quando? Ou, se preferirmos, estamos sempre a descrever coisas, pessoas e eventos, no espaço e no tempo. Os modelos conceptuais e ontologias mais não fazem que fornecer ferramentas para operacionalizar a representação do conhecimento e, sobretudo, para garantir a interoperabilidade entre diferentes formas e sistemas de armazenar a informação.

Nesta lógica, parece vantajoso que o desenvolvimento do RiC se faça em harmonia com outras soluções já estabilizadas e consolidadas. O CIDOC-CRM, que desde 2006 é uma norma ISO 21127:2006, tem uma aplicação tradicionalmente associada ao universo dos museus e do património imóvel mas não se esgota nestes domínios. Por outro lado, a abrangência e integração de conteúdos parecem ser a resposta mais adequada ao perfil dos atuais utilizadores dos sistemas de informação: os consumidores da informação que produzimos posicionam-se em redes complexas e globais, muitas vezes para além das áreas tradicionais de especialização do património cultural. Ou, dito de outra forma, procuram informação centrados no conteúdo e não tanto na disciplina que a enquadra (arquivística, biblioteconomia, museologia ou outra).

No momento em que se encontra ainda em aberto o processo de integração das normas de descrição arquivística emanadas pelo ICA, e respetiva substituição por um novo modelo conceptual, o diálogo com profissionais de outras áreas é um caminho que só pode resultar em vantagens para todos os envolvidos no processo.

 

Exemplos de aplicação da ontologia CIDOC-CRM

Museus:
Museu do Prado – https://www.museodelprado.es/modelo-semantico-digital/modelo-ontologico
catálogo on-line – https://www.museodelprado.es/coleccion

Património arqueológico:
Projecto Ariadne – http://www.ariadne-infrastructure.eu/About
Catálogo online – http://portal.ariadne-infrastructure.eu/

Bibliotecas:
Deutsche Digitale Bibliothek (DDB) – https://www.deutsche-digitale-bibliothek.de/content/ueber-uns
Catálogo online: https://www.deutsche-digitale-bibliothek.de/advancedsearch

 

 

Referências:
EGAD – Experts Group on Archival Description. (2016, Setembro). Records in Context: a conceptual model for archival description (Consultation Draft v0.1). International Council on Archives. Obtido de http://www.ica.org/en/call-comments-release-records-contexts-egad
Gillean, D. (2017, Janeiro 5). Artefactual response to RiC-CM Draft. ICA-EGAD-RiC Archives. Obtido de https://groups.google.com/forum/#!topic/ica-atom-users/QwSor7OQ90U
ICOM-CIDOC. (2011, Novembro). Definition of the CIDOC Conceptual Reference Model (Version 5.0.4). (N. Crofts, M. Doerr, T. Gill, S. Stead, & M. Stiff, Eds.). ICOM. Obtido de http://www.cidoc-crm.org/get-last-official-release
ICOM-CIDOC. (2017). Home | CIDOC CRM. Obtido 7 de Março de 2017, de http://www.cidoc-crm.org/
InterPARES Trust. (2016, Dezembro 11). InterPARES Trust responds to EGAD-RiC. Obtido de https://interparestrust.com/2016/12/11/interpares-trust-responds-to-egad-ric/
Kilkki, J., Hupaniittu, O., & Henttonen, P. (2012). Towards the new era of archival description – the Finnish approach. Em International Council on Archives Congress. Brisbane, Australia – 20th-24th August 2012. Brisbane, Australia: ICA – International Council on Archives. Obtido de http://ica2012.ica.org/files/pdf/Full%20papers%20upload/ica12Final00361.pdf
Marklund, L., & Halling, S. (2016). Archival Information + CIDOC CRM = true? | Digisam. Obtido de http://www.digisam.se/archival-information-cidoc-crm-true/?lang=en
Reed, B. (2017, Fevereiro 1). New conceptual model for recordkeeping description, Records in Contexts. Obtido de http://www.records.com.au/blog/new-conceptual-model-for-recordkeeping-description-records-in-contexts/
Technical Subcommittee on Describing Archives: A Content Standard (TS-DACS). (2016, Dezembro 7). Records in Contexts (RiC) Comments Technical Subcommittee on Describing Archives: A Content Standard (TS-DACS). Society of American Archivists. Obtido de https://docs.google.com/document/d/1XoQmrT-kdj5fCKNcg0umghsWFORrKRf7rMsB4OsnY5o/edit
Technical Subcommittee on Encoded Archival Standards (TS-EAS). (2016, Dezembro 19). Comments from TS-EAS on ICA EGAD RiC consultation draft, September 2016. Society of American Archivists. Obtido de https://docs.google.com/document/d/1k0gGnvgtzbVDKOWHlme9V6N6QicOscW-IK9-CPvthrA/edit

 

Sobre o Autor
Maria José de Almeida é licenciada História, variante Arqueologia, pela Universidade de Lisboa, estando a terminar o curso de doutoramento na mesma universidade. Até 2016 trabalhou nos municípios de Santarém e Cascais, desenvolvendo ações de arqueologia preventiva e gestão de coleções de bens arqueológicos. Foi responsável pela implementação do Sistema de Informação dos Museus de Cascais e coordenou a integração do mesmo na plataforma de Sistema de Informação Geográfica da autarquia. Fez parte dos corpos gerentes da Associação Profissional de Arqueólogos (APA) desde 2002, tendo sendo presidente da direção no triénio 2007-2009. É membro do Grupo de Trabalho Sistemas de Informação em Museus da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD). Atualmente integra a equipa da Direção de Serviços de Inovação e Administração Eletrónica da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).
Curriculum detalhado aqui.

Sobre o Autor

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